Quem trabalha hoje, tornou-se lixo!

foto de Telmo Vaz Pereira

A IMPACIÊNCIA POR OUTRO 25 DE ABRIL.

“Sabe o que eu queria, menina? Outro 25 de Abril!” foi o desabafo, da operária têxtil Deolinda Araújo à jornalista Natália Faria, do «Público», que a foi entrevistar para compreender como é (im)possível sobreviver com o salário mínimo no Portugal de hoje.

Quarenta anos depois do 25 de abril esta quinquagenária é obrigada diariamente a ir a pé para a fábrica por não ter dinheiro para o autocarro. Mais de meia-hora de esforço suplementar de manhã e ao fim da tarde. Mas também o cenário da fome á sua volta: “Na fábrica vejo colegas a passar fome. Para almoçar, temos uma mesa e cada uma leva de casa. Lá mais para o final do mês, algumas saem da fábrica à hora de almoço para esconder que nem para a sopa tiveram.”

Bem que gostaria de as ajudar, que a solidariedade continua a ser um valor estrutural na classe dos explorados, mas como consegui-lo se o marido, diabético e com necessidade de dispendiosos medicamentos, ganha quase o mesmo e o filho, de 28 anos, continua lá em casa, incapaz de conseguir emprego?

Mas não é só a fome: há que contar também com as humilhações dos patrões ou dos seus cães-de-fila. Que obrigam as operárias a dar quatro horas de trabalho suplementar não remunerado aos sábados de manhã. “Se alguém reclama, respondem que quem não estiver bem é livre de ir para tribunal. E ninguém vai, claro.”

No artigo, intitulado “Se for para tirar ainda mais, prefiro que não me aumentem”, Natália Faria ouve os sintomas de uma revolta surda, ainda à procura de se expressar com a violência de quem muito está a sofrer: “A gente olha para a cara umas das outras e vê tudo desanimado, triste, e eles sempre na maior, sempre com um sorriso. Quem trabalha hoje, tornou-se lixo, gente que está ali para ‘dar’ a produção que eles pedem. Então, se for para tirar ainda mais, prefiro que não me aumentem o salário. Se não tiver bife, como sopa. Mas dêem-me paz”.

Há um Portugal indignado, que está à espera do momento em que os brandos costumes se transformem na vontade de um tempo novo como o prometido pela Revolta dos Capitães de Abril. O Portugal que integra o triplo dos trabalhadores, que entre 2006 e 2012, passaram a receber como paga o salário mínimo nacional. Cerca de 400 mil pessoas. Que – reconhece Carlos Farinha Rodrigues, investigador do fenómeno social -, não conseguem ganhar o bastante para se livrarem das situações de pobreza.

Será possível um outro 25 de Abril, com a estructura política nacional instalada e os comparsas europeus vivendo como sanguessugas?

Os portugueses viveram adormecidos durante 50 anos do Estado Novo. Agora, há 40 anos sonando que vivem num sistema democrático, que de facto não passa de uma farsa política, onde uma minoria de chicos espertos vive á custa de uma maioria que pacificamente consente regressar não ao Estado Novo, mas a um sistema de escravatura humana.

É triste que apesar de um dia de trabalho, muitas vezes para além de um horário normal, as pessoas ainda vivem abaixo da linha de pobreza, sem dinheiro para uma alimentação adequada.

About Carlos Piteira

Licenciado em Microbiologia pela Maryland University. Especialista em Microbiologia Clínica pela American Society of Clinical Pathologists. Consultor da Qualidade do Ar Interior. Autor do livro: ” A Qualidade do Ar Interior em Instalações Hospitalares”

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One Comment em “Quem trabalha hoje, tornou-se lixo!”

  1. Marcos Pinto Basto Says:

    Há um ano atrás Portugal já necessitava duma revolução radical que devolvesse dignidade ao super ultrajado Povo por esse desgoverno infame do Laparoto que um presidente da república teima em manter em tolerante conivência. Portugal está arruinado e nem daqui a 20 anos conseguirá levantar-se. Os mais novos que cresceram no embalo das ladainhas democráticas dum bando de ladrões, não conseguem entender as lembranças saudosistas de Salazar e Caetano. Talvez nem consigam mais sentir que têm uma Pátria e o dever de lutar por sua soberania, outra palavra que não conhecem o significado!Os portugueses têm que unir-se e revoltarem contra esse bando de ladrões que desgraçou Portugal!

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