OS RISCOS DE INFECÇÕES HOSPITALARES EM TEMPOS DE CRISE

9 de Dezembro de 2012

Saúde

Para além de toda a informação publicada na comunicação social, sobre as dificuldades dos hospitais públicos na aquisição de medicamentos e consumíveis para tratamento de doentes, há muitas outras dificuldades económicas e financeiras em muitos outros serviços, particularmente nos bastidores hospitalares, causados pelos cortes orçamentais. Mas, como estão directamente fora do alcance dos ocupantes, raramente são mencionados não obstante, os efeitos na saúde e mesmo na vida. Os doentes e pessoal hospitalar, correm risco de infecções contraídas em muitas unidades hospitalares, onde cortes extremos em serviços de manutenção dos sistemas do ar ambiente, através dos sistemas de ventilação das unidades, são muitas vezes ignorados ou reduzidos a cuidados mínimos para redução das despesas hospitalares. Esse tipo de infecções, definidas como infecções nosocomiais, para as quais há poucas estatísticas e nunca conhecidas do público em geral, são propagadas nas unidades através do meio ambiente.

A maioria dessas infecções, particularmente nesta época do ano, está relacionada com o aparelho respiratório. Ao longo de cada dia, centenas de pessoas dão entradas nos serviços de urgência dos hospitais à procura de apoio e tratamento clínico. Muitas pessoas passam muitas horas em salas de espera ou deitadas em macas pelos corredores aguardando atendimento, lugares onde o sistema de entrada de ar novo ou extracção de ar contaminado é insuficiente ou mesmo não existente, ficando cada uma exposta a infecções transmitidas pelo ar que respiram, independente do problema de saúde que as levou a procurarem ajuda clínica. Não só os doentes e acompanhantes como também todo o pessoal clínico está exposto a este tipo de infecções.

Esta situação, não está relacionada apenas aos edifícios hospitalares, como também a todos centros de saúde espalhados pelo país, que funcionam muitas vezes em edifícios não adequados para o tipo de actividade clínica e sem sistemas de ventilação.

Muita legislação e normas têm sido criadas ao longo dos últimos 5 anos. Não é por falta de legislação que o sistema aqui referido está cada vez mais degradado. Mas em Portugal, a maior parte da legislação e normas criadas são apenas para aumentar as burocracias. As únicas leis que os governos obrigam a serem cumpridas, são aquelas que contribuem para o aumento de receitas no orçamento. As demais, e neste caso as relacionadas aqui neste artigo, que exigem investimento e despesas, caem no esquecimento, só sendo mencionadas em casos pontuais, muitas vezes para ilibar o governo de acusações, onde por mero acaso a comunicação social aponta o dedo durante um ou dois dias e depois nada mais se menciona até outra ocorrência.

Os D.L. 78/2006, 79/2006 e 80/2006, para além de mais alguns, determinam normas e parâmetros a serem aplicados em todos os edifícios existentes, incluindo edifícios hospitalares. No entanto, a situação da crise económica que se tem agravado ano após anos, tem contribuído para enormes cortes a nível dos hospitais, dificultando o cumprimento das leis para melhoramentos dos edifícios hospitalares. Muitos hospitais públicos ao longo dos últimos anos, têm reduzido os Serviços de Instalações e Equipamentos, SIE, que compreendem também os serviços de instalação e manutenção dos sistemas de Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado, AVAC, colocando em risco de degradação cada vez maior, as condições ambientais em que os ocupantes dos referidos edifícios, doentes e pessoal hospitalar, cada vez mais enfrentam no respeitante à saúde.

Em Portugal, mais de 90% dos hospitais públicos, há excepção de alguns serviços clínicos, não possuem qualquer tipo de certificação, muito menos acreditação.

Mesmo a Médio Prazo, os Hospitais Privados Apresentam um Futuro Cinzento

Ao entrarmos hoje na recepção de muitos hospitais privados, inaugurados nos últimos anos, dá a sensação de entrarmos numa recepção de um hotel de 4 ou 5 estrelas. O Estado aposta cada vez mais num sistema de saúde privada, suportada por grupos económicos privados. Estes grupos, estão investindo na área hospitalar, com intuito de lucros através da saúde, razão pela qual todo o investimento é feito nas cidades principais na zona litoral de norte a sul do país. Certamente que o centro e o leste do país, com reformados com reformas mínimas, trabalhadores com salários precários e desempregados, investir nessas zonas na saúde não é atractivo a grupos investidores com fins lucrativos.

Mas a visão dos grupos investidores na saúde, é uma visão bastante limitada, com agravamento económico à vista, mesmo a médio prazo. Com as dificuldades cada vez maiores por parte do Estado no cumprimento das suas obrigações no respeitante à ADSE e muitos outros serviços sociais, como também o aumento de desemprego de uma classe média cada vez mais pequena e com mais dificuldades no dia a dia, as probabilidades de milhares de famílias se verem obrigados a eliminar seguros para reduzir encargos mensais, e a perda de seguros de outras famílias através de benefícios de empresas para as quais trabalhavam e acabaram desempregados, limita o número de portugueses com capacidade de acesso ao sistema de saúde privado. Gradualmente, muitos hospitais privados, continuaram com uma fachada de recepção luxuosa, mas acabarão por serem obrigados a fazerem cortes significativos em muitos serviços, sendo os serviços de instalação e manutenção de sistemas de ventilação um dos mais afectados.

A medicina privada, é um sistema com futuro em países onde existe uma percentagem elevada de população na classe média, com tendências a essa classe progredir. Em país algum é eficiente para as classes menos privilegiadas. Em Portugal, com 25% da população praticamente abaixo do limite da pobreza e com uma classe média cada vez mais reduzida, os hospitais privados têm um futuro muito cinzento a curto prazo.

Carlos Piteira

Especialista em Microbiologia Clínica

Ler a petição: Parlamento-Os Velhos do Restelo. Se concordar com a iniciativa, assine e divulgue.

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About Carlos Piteira

Licenciado em Microbiologia pela Maryland University. Especialista em Microbiologia Clínica pela American Society of Clinical Pathologists. Consultor da Qualidade do Ar Interior. Autor do livro: ” A Qualidade do Ar Interior em Instalações Hospitalares”

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6 comentários em “OS RISCOS DE INFECÇÕES HOSPITALARES EM TEMPOS DE CRISE”

  1. RV Says:

    Lamentavelmente a participação do fórum neste assunto tem sido reduzida, o que é pena porque muito haveria a dizer face às responsabilidades dos administradores hospitalares que por vezes temos à frente dos Hospitais. Na minha actividade de técnico de SIE tem-me sido solicitadas/exigidas coisas completamente estapafúrdias como: a colocação de arquivos clínicos em pisos técnicos, ou perguntarem-me porque é que não se compram mesas iguais a estas (estávamos no gabinete da administração), quando proponho bancadas em inox para zonas hospitalares, ou ainda quando propôs a aquisição de uma nova maquina de lavar e desinfectar socos para o B.O. e a resposta foi “porque é que não lavam à mão!?”
    São estes administradores com formação base muitas vezes em psicologia, literatura, história, etc, que em alguns casos estão à frente dos conselhos de administração, e se muitas vezes se aconselham da parte técnica com quem sabe, outras vezes a necessidade de se afirmarem a qualquer custo dá destas coisas, que são graves e deviam sensibilizar os responsáveis pelo sector.

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    • opaisquetemos Says:

      Caro RV,
      Obrigado pelo seu comentário.

      Concordo plenamente com a sua opinião sobre a situação nas unidades hospitalares. A maioria das administrações hospitalares, não são nomeadas com base num CV de conhecimento e experiência, mas sim por relações de conhecimentos políticos. Infelizmente, e muito pior do que isso, consideram-se entendidos as administrações consideram-se entendidos em todos os aspectos e não dão ouvidos aos técnicos especializados que trabalham.

      Também, a maioria das decisões tomadas em hospitais,são não com base nas necessidades hospitalares, tanto no âmbito clínico como a nível geral de instalações e infrasestruturas, mas com base em números monetários independente se os serviços podem ou não ser afectados.

      Com os cortes previstos para 2013 em todo o sistema de saúde, a situação será sériamente afectada, entrando muito da qualidade dos serviços a todos os níveis em estado de degradação total.

      Vivemos dentro da Comunidade Europeia, supostamente aos olhos do mundo, uma comunidade de países com condições de nível vida bastante previligiadas. No entanto, Portugal caminha para um país com condições de um país do 3.º mundo, onde tudo se encontra a deteriorar dia após dia.

      Sinceramente,

      Carlos Piteira

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  2. Antonio Says:

    off topic, Nao estou a paro dos custos do sector publico da saude em Portugal mas nao ficaria mais barato ao estado simplesmente pagar os custo do privado. Digo isto porque quando levei a minha filha ao hospital publico em Coimbra paguei mais que no privado em Lisboa . Lembro averiguar dos custo da saude para a familia e os precos por ano eram muito baixos , pelo menos comparados com os EUA

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    • opaisquetemos Says:

      Caro António,

      Obrigado pelo seu comentário. Certamente que os preços em Portugal, comparados com os preços nos EUA, dos quais eu sou familiar, são mesmo muito mais baratos. Mas a questão, é que cerca de 25% dos portugueses ganham ordenados extremamente baixos, na ordem dos 500 euros brutos mensais. Na melhor das hipóteses, um seguro familiar custa aproximadamente 50% do salário. Esses Portugueses, não têm capacidade de pagarem seguros e terem qualquer acesso ao privado.
      O caso que lhe aconteceu, acredito que numa das suas vindas a Portugal, foi que a sua filha foi atendida nos serviços hospitalares, sem estar integrada ou inscrita nos serviços de saúde em Portugal. Caso contrário, teria de pagar apenas uma taxa moderadora, o que se chama co-payment nos EUA. Infelizmente, quase 3 milhões de pessoas em Portugal não têm capacidade de pagar esse co-payment. Isso incluí reformados com pensões de miséria, abaixo dos 300 euros mensais, quase 1 milhão de desempregados e centenas de milhares de jovens que embora licenciados e a trabalhar, ganham salários abaixo do salário mínimo nacional, menos de 485 euros por mês.

      Vivi quase 3 décadas nos EUA, muitos desses anos ligados à saúde. Estou familiar com o custo da saúde nos EUA, que está cada vez mais dispendiosa. Estou também a par da situação da saúde e da miséria em Portugal que cada vez está mais afundado. A situação aqui a nível de saúde pública está cada vez pior. Mas não há futuro para a medicina privada porque a classe média em Portugal está a desaparecer. Num futuro a curto tempo haverá basicamente uma classe grande de pobreza e uma pequena de milionários.

      Sinceramente,

      Carlos Piteira

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  3. Rui Vieira Says:

    100% correto e muito importante, sendo que a questão não se fica por aqui, e só tende a agravar. Infelismente junta-se a esta questão a má preparação de muitos administradores hospitalares que decidem questões técnicas (AVAC p. exp.), apenas com critérios económicos sem atender às questões técnicas, especificadas por engº dos SIE.

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    • opaisquetemos Says:

      Caro Rui Vieira,

      Obrigado pelo seu comentário. Na realidade, a única preocupação pelos administradores hospitalares é sobre o factor económico, ignorando totalmente as questões técnicas recomendadas pelos engenheiros dos SIE.

      Sinceramente,

      Carlos Piteira

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