O IMPACTO DA CRISE ECONÓMICA NA SAÚDE – Parte 1

4 de Novembro de 2012

Saúde

Muitos dos meus leitores têm considerado Opaísquetemos, como um site apenas de assuntos relacionados com política e economia. Na realidade, a preocupação deste site não é direccionada apenas a político-económicas, mas a tudo que esses dois tópicos e outros, afectem o bem-estar do povo em termos gerais, sendo a saúde das populações (saúde pública) uma das maiores preocupações.

Alguns dos temas aqui expostos, para além do conhecimento e experiência que possuo, tanto no âmbito profissional como de vida, requerem pesquisa sobre estudos realizados e experiências vividas, para informação mais detalhada, de modo que de uma forma sumarizada e tanto quanto possível numa linguagem com termos acessíveis à maioria dos leitores, possa providenciar informação para o dia-a-dia, como também apoio a qualquer dúvida, ou mais esclarecimentos sobre qualquer matéria relacionada com o tema.

A Assembleia da República, está este mês na avaliação do Orçamento do Estado para 2013. Para além de tudo que já sabemos, ainda que em termos básicos, é certo e seguro que certas áreas de despesas, particularmente no respeitante a serviços sociais, vão ser severamente afectadas. Essas decisões, feitas por indivíduos que para além de algum conhecimento de números, têm pouco conceito sobre o impacto dessas matérias, podem afectar, não só a nível de cada um de nós mas do país e não apenas para o período para o qual o OE se destina, como com efeitos de repercussão de longa duração. A saúde pública é um desses temas.

PARTE 1 – A SAÚDE MENTAL

 De acordo com a Organização Mundial de Saúde (World Health Organization – WHO), um dos maiores impactos das crises económicas, são os efeitos na saúde mental e física dos povos afectados. Está comprovado que muitos dos problemas de saúde mental, estão relacionados com pobreza, desigualdade e outros factores económicos e sociais. Em tempos de crise económica, são maiores os riscos da perda de bem-estar mental, afectando muitas pessoas de todas as classes sociais e suas famílias.

A crise económica que o país vive, tem sido um factor importante no declínio da economia, no aumento do desemprego, na perda de casas e outros imobiliários, no aumento do número de pessoas vivendo em endividamento e num estado de pobreza. O aumento no débito nacional, e a exigência acelerada na redução do défice, está obrigando o governo a exigir cortes severos no orçamento em todos os serviços públicos. As medidas de austeridades estão a criar graves problemas no respeitante ao sistema de saúde e serviços sociais de apoios às famílias.

A saúde mental não se trata meramente da ausência de desordens fisiológicas, mas também no bem-estar geral do indivíduo. Uma boa saúde mental, permite um melhor uso das faculdades intelectuais e flexibilidade emocional que são as bases de comportamento social em face do stress, o que é importante para um funcionamento saudável das famílias e da sociedade. Um indivíduo com boa saúde mental, possui capacidade do uso das suas capacidades ou habilidades, consegue enfrentar melhor o stress da vida do dia-a-dia e desenvolver trabalho com maior produtividade para a sociedade na qual está integrado.

Como acontece com cada indivíduo, as sociedades podem ser mais ou menos resistentes a factores de stress como as crises económicas. As crises económicas podem destabilizar os orçamentos do Estado, afectando serviços públicos tais como a educação e os sistemas dos serviços de saúde. Contudo, existem estatísticas que demonstram que legislação para protecção dos serviços sociais de apoio, podem aumentar a resistência do indivíduo e da sociedade aos efeitos económicos e amenizar os efeitos da saúde mental no desemprego e o stress das consequências produzidas pela crise económica.

 Tal como a crise económica contribui para um aumento dos problemas na saúde mental, os problemas da saúde mental contribuem para um aumento dos problemas económicos. Os problemas da saúde mental contribuem para uma perda de produtividade nacional. Absentismo e abandono do mercado de trabalho, tem aumentado devido a stress, ansiedade e desordens relacionadas com depressão. Cerca de 1/3 dos benefícios e subsídios de apoio por incapacidade, são atribuídos por problemas de saúde mental nos países da Comunidade Europeia, com a percentagem aumentando com o agravamento da crise.

Devido a problemas de saúde mental, muitos deles terem início na fase de adolescência e nos primeiros anos da vida de adulto, para o qual contribuíram problemas socioeconómicos no país e com consequências nos meios familiares, a perda de produtividade da sociedade pode ter efeitos de longa duração.

Em face do exposto, a saúde mental é um factor económico importante. É essencial que a sociedade dê maior importância ao valor de uma boa saúde mental, para alcançar um nível de produtividade contínua. O sucesso da economia, depende crucialmente do estado de saúde mental de cada um.

A saúde mental é determinada por factores socioeconómicos e factores do ambiente que nos rodeia. A crise económica enfraquece factores de protecção tais como  benefícios de emprego sobre:

  • Segurança no emprego – apoio na execução do trabalho e suporte social a nível de ambiente de trabalho.
  • Estabilidade de emprego com segurança de salários
  • Estabilidade social a nível de relações sociais dentro dos locais de trabalho, das relações familiares e amizades, das comunidades, dos movimentos cívicos e uma confiança e acreditação de normas de segurança.

e aumenta os factores de risco, como:

  •  Desemprego
  • Endividamento
  • Pobreza
  • Depravação social
  • Consumo de álcool – em algumas regiões e particularmente nos homens, contribuindo para o aumento de suicídios.

Níveis elevados de desordens mentais, estão associados com um factor baixo de educação, desvantagens materiais e desemprego. O suicídio é mais comum em pessoas de nível socioeconómico elevado, devido a decadência e fragmentação social como consequências do desemprego, perda de rendimentos e valores imobiliários.

As desvantagens das pessoas em cada comunidade para problemas relacionados com a saúde mental, pode ser explicada por factores como a falta de experiência com insegurança e perda de esperança.

O sistema de saúde não pode só por si alcançar um bom sistema mental. Muitos dos factores determinantes da saúde mental, são encontrados fora do sistema de saúde, mas todos os sectores do governo têm de estar envolvidos em promover saúde mental.

FACTORES DETERMINANTES DA SAÚDE MENTAL ENTRE A POPULAÇÃO

FACTORES DE PROTECÇÃO MENTAL FACTORES DE RISCO MENTAL
Estado Social Pobreza, Níveis baixos de educação, endividamento, exclusão social
Serviços de protecção social Má nutrição durante gravidez, abusos sociais, maus relacionamentos entre pais e filhos
Estado de saúde e ambiente durante gravidez e infância Transmissão de problemas de saúde mental entre gerações
Condições ambientais nos locais de trabalho e habitação Desemprego, insegurança no trabalho, stress do trabalho
Estilos de vida saudáveis Abusos de droga e/ou álcool

A actual crise económica está aumentando os níveis de pobreza. A crise económica atinge as pessoas de rendimento salariais mais baixos e mesmo aqueles nas classes médias que empobrecem com a perda de emprego e habitação. A crise económica tem aumentado drasticamente o endividamento, a perda de casas e evicções.

A corrente crise económica está aumentando a exclusão social de grupos vulneráveis de pessoas de baixos rendimentos e vivendo abaixo da linha de pobreza. Tal vulnerabilidade, inclui crianças, jovens, famílias de um só parente, desempregados, minorias étnicas, imigrantes, e idosos. A pressão económica através dos efeitos causados na saúde mental de pais, afecta a saúde mental dos filhos, crianças e adolescentes. Os efeitos de extrema pobreza nas crianças, inclui défices no desenvolvimento intelectual, emocional e físico, de consequências sobre a saúde e bem-estar ao longo da vida.

Sem qualquer surpresa em pesquisas de estudos efectuados, durante períodos de recessão, a desigualdade social é estendida à saúde das pessoas. As pessoas com menos nível de educação, enfrentam maior risco de doença após a perda de trabalho. As Pessoas que são afectadas pelo desemprego, empobrecimento e disrupções  familiares, têm um maior risco de problemas de saúde mental, que podem contribuir para estados de depressão, abuso de álcool e suicídio durante a adversidade económica. As pessoas mais endividadas têm maior probabilidade de sofrer desordens mentais.  Os jovens desempregados têm um risco maior de problemas de saúde mental do que os jovens com empregos. As crises económicas contribuem para aumentos de mortalidade. Os níveis nacionais de desemprego, podem estar relacionados às percentagens do aumento de suicídios.

Do exposto acima, conclui-se que a crise económica tem efeitos negativos na saúde, especialmente no respeitante à saúde mental. Toda a exposição pode-se apresentar no seguinte quadro :

Os factores de impacto na saúde mental numa crise económica

Na parte 2 – Como Aliviar os Efeitos da Crise na Saúde Mental, a publicar num dos próximos dias, serão apresentadas medidas, no sentido de prevenção e alívio nos problemas sobre a saúde mental.

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About Carlos Piteira

Licenciado em Microbiologia pela Maryland University. Especialista em Microbiologia Clínica pela American Society of Clinical Pathologists. Consultor da Qualidade do Ar Interior. Autor do livro: ” A Qualidade do Ar Interior em Instalações Hospitalares”

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4 comentários em “O IMPACTO DA CRISE ECONÓMICA NA SAÚDE – Parte 1”

  1. Mil Razões... Says:

    Muito a propósito, deixamos aqui a informação sobre o simpósio Emprego e Desemprego / Impacto na Saúde Mental, a realizar a 24 de novembro de 2012 no Auditório Carvalho Guerra, da Católica – Porto, uma organização Mil Razões…: http://milrazoes.no.sapo.pt/index_ficheiros/Page6177.htm

    Mil Razões…

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  2. Jorge A. Campino Says:

    Caro Piteira, mais uma vez, aplaudo o seu texto, pois de uma forma clara e concisa mostra o que se passa na nossa sociedade. Vejo por mim, outrora um empresário de sucesso, agora uma pessoa que perdeu tudo devido a esta crise económica, com algumas dividas, sem fonte de rendimento, com prestações da casa em atraso, com o veiculo já entregue ao banco, com os servicos de internet e televisão prestes a serem cortados, a passar fome. Vejo-me com uma profunda depressao sem auto-confiança, a acordar todos os dias sem rumo, farto de enviar curriculos para diversas empresas, algumas das quais até me respondem, mas oferecem uma proposta de trabalho no minimo vergonhosa. ( Uma empresa, a qual prefiro que fique no anonimato, ofereceu-me senhas de refeição e automóvel da empresa para deslocações, e como se isto fosse uma benesse, ofereciam-me um salário de 200€). Acredito que a taxa de suicidios e a morte prematura de idosos vá subir com estas medidas de austeridade, assim como casos de depressão e violencia doméstica. Estamos a assistir a um assassinato da classe média, a nivel económico mas também a nivel psicológico, e do nosso já débil tecido empresarial. Pergunto-me até quando nós, Portugueses, vamos aguentar aquilo que nos estão a fazer, até onde este governo e talvez o próximo vão espremer o povo? Neste momento, preocupo-me, não por mim, Jorge, mas pelo conjunto de Jorges que estão a surgir. O meu avô uma vez ensinou-me, ao educar um animal, “nunca mas nunca, leves o animal a ficar sem outra alternativa senão virar-se a ti”, é exactamente o contrário que este governo está a fazer. Tenho receio que nos estejam a encostar de tal modo à parede, que brevemente não teremos outra alternativa senão retaliar, esperemos que não seja tarde.
    Peço desculpas se o meu texto às vezes parece um pouco confuso, não consigo expor claramente tudo o que me vai no intelecto neste momento, a minha revolta e mágoa são imensas. Mais uma vez caro Piteira um forte abraço, e peço que continue a expor todos os nossos problemas. Bem haja.

    Jorge

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    • opaisquetemos Says:

      Caro Jorge,

      Agradeço o seu comentário. Compreendo a situação actual que enfrenta, que corresponde a centenas de milhares de portugueses em condições idênticas. Pessoalmente, ainda que eu esteja em actividade, tenho sentido uma queda de mais de 80%. Mas, mesmo que eu atinja o fundo por completo da actividade que exerço, não significa que eu me considere vencido e caia em desânimo. A vida é uma luta constante de batalhas e nem todas conseguimos ganhar. Mas mesmo nas batalhas que perdemos, desde que preservamos a nossa saúde e muito particularmente a mental, ganhamos experiência e tornamo-nos ainda mais fortes.

      Contrariamente aos jovens, a nossa geração já não tem o factor tempo, para recuperar de quedas sofridas na vida. Mas não significa que este seja um ponto final de actividade no nosso percurso. Os conhecimentos e experiências adquiridos ao longo dos anos, permitem na maior parte das vezes dar a volta à situação, ainda que tenhamos de pensar mais modestamente e modificar alguns planos de percurso. Certamente, que nestas situações há o risco de perdermos, mesmo todos os valores materiais. Mas, a nossa experiência e conhecimentos adquiridos ao longo dos anos, esses ninguém nos tira. Nestes momentos, temos que rever a nossa mente. Não pensando nas más recordações de acontecimentos na nossa vida profissional e pessoal, mas sim em algo dentro dos nossos conhecimentos, experiências, habilidades ou vocações, que permitam algo de criatividade e um novo início de vida, ainda que numa actividade totalmente diferente. Muitas vezes ao longo da vida as pessoas têm o desejo de concretizar projectos, vocacionais ou por paixão, mesmo lucrativos e com muito pouco ou mesmo nenhum investimento. Mas, o envolvimento na actividade a que se dedicaram e que lhes proporcionava na altura o sustento, deixaram para mais tarde essas concretizações. Quem sabe se um acontecimento indesejado e inesperado na vida, não é o momento ideal para a concretização do mesmo e encontrar uma nova forma de viver e mesmo felicidade?

      Caro Jorge, “As Árvores Morrem de Pé”.

      Sinceramente,

      Carlos Piteira

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