ENTRÁMOS COM O PÉ ESQUERDO NA CE. TALVEZ TARDE OU NUNCA NOS ENDIREITAMOS

15 de Outubro de 2012

O PAÍS QUE TEMOS

Estarmos a procurar resolver a situação económica a que chegámos, sem procurar resolver em primeiro lugar a situação política do país, é como que um médico tratar dos sintomas que afligem um doente, sem procurar determinar qual a doença. Os sintomas voltam a surgir e cada vez mais, a doença se agrava.

O cancro económico do país vem desenvolvendo-se há quase três décadas, muito antes de a doença ter demonstrado quaisquer sinais ou sintomas. A entrada de Portugal na Comunidade Europeia, CE, foi uma oportunidade desperdiçada para o desenvolvimento económico do país. A injecção de fundos monetários pela CE, foi no sentido de criarmos estruturas produtivas, que pudessem contribuir para estabilizar o nosso nível com os outros países que já existiam na comunidade europeia.

Em lugar do país ter aproveitado os apoios da CE e criado estruturas produtivas, para produzirmos enriquecimento nacional e sustentação contínua, foram financiadas verbas milionárias, a título de “fundos perdidos”, a grupos económicos e empresas fictícias de indivíduos oportunistas, ligados a partidos políticos e interesses económicos, onde gradualmente foram introduzidos ex-governantes, que favoreceram esses lobbies enquanto governantes. Criaram-se infra-estruturas de betão armado, como auto-estradas para além do necessário. Construíram-se obras, tais como o CCB, a Casa da Música e estádios de futebol e outras obras públicas com derrapagens, algumas de mais de 200%, sem atribuir responsabilidade e punição a ninguém. Toda a construção de betão, em benefício de meia dúzia de empresas apadrinhadas por ex-governantes.

Enfim! Os fundos monetários e mesmo todo o tipo de empréstimos fáceis, não foram empregues no interesse do futuro do país, mas para o enriquecimento de um punhado de oportunistas, bem infiltrados no sistema político, tanto em governos, como dentro da Assembleia da República, AR. Abandonámos a pesca, a agricultura e todo o interior do país, passando a importar mesmo produtos básicos para a sobrevivência. Tudo isto com o aval governamental. A banca, viveu um dos momentos de maior prosperidade ao criar produtos de fácil acesso ao crédito para tudo que o dinheiro pode comprar, usufruindo de leis criadas para o efeito, que permitiam o acesso fácil a todo o tipo de crédito, como habitação e consumo.

Por outras palavras, passamos a ser os novos-ricos europeus, sem capacidade de gestão económico-financeira e muito menos de precaver para o futuro. Passámos a planear mega projectos (aeroporto, TGV, etc), onde só em estudos de planeamentos, sem qualquer proveito, gastámos milhões de euros, sem nunca se ter pensado se teríamos capacidade financeira de executá-los, para além das percentagens dos apoios comunitários que nos seriam concedidos.

Governo após governo, as nossas dívidas aumentaram, rolando sempre para o próximo governo. O aumento da dívida na última década, é impagável nas próximas quatro décadas. O ex primeiro-ministro, José Sócrates disse na sua última campanha eleitoral que se Portugal não pensasse pagar a dívida, cometia calote e que ele não era homem para calotes. Já depois de se tornar um cidadão comum e vivendo em estilo em Paris, discursou que as dívidas do Estado não são para ser pagas, mas para irem rolando. O actual primeiro-ministro, Passos Coelho, afirmou há dias que ele é do tipo de homens que paga as dívidas que se compromete, mesmo que não tenham sido cometidas por ele. Certamente, que depois de sair do cargo que desempenha e passar por Paris para tirar algumas aulas de filosofia, ficará com o mesmo conceito de José Sócrates sobre a dívida do Estado.

Não foi apenas o Estado que se expandiu em projectos e despesas para além do sustentável, sem gestão. Muitos portugueses, ao viverem uma década de benefícios e liberdades sociais, nunca antes vivida no Estado Novo, acreditaram que o limite para consumo era o céu. Aliciados com facilidades concedidas pela banca de fácil crédito para aquisição de tudo, compraram casas, com empréstimos acrescidos para mobílias, carros e mesmo viagens de férias, acreditando que tudo estava incluído no pacote do empréstimo, sem pensarem que os juros acumulados sobre o valor total do empréstimo poderiam ir a mais de 100 a 120% no final do pagamento. Houve um economista, que neste momento não me recordo o nome, que afirmou numa conferência, que “….os pobres são os melhores clientes para o consumo, porque pagam sempre mais caro que os ricos pelos mesmos produtos”.

Num país com uma economia forte, com postos de trabalho em quantidade, onde é possível sempre angariar um trabalho extra para fazer face a encargos assumidos, tudo é viável ainda que nos saia do corpo. Falo por experiência própria vivida. Mas quando a crise económica é afectada pela má gestão e planeamento do Estado e das famílias, em que de parte a parte não existe um pé-de-meia para momentos difíceis, a situação é catastrófica.

Mas, nem todas as famílias foram afectadas devido a excessos de encargos assumidos. Talvez, perto de três milhões de portugueses, com pensões de misérias, em que têm que optar entre medicamentos ou alimentos e trabalhadores de salários mínimos e sem acesso a crédito para se endividarem, caíram em desespero abaixo da linha da pobreza devido à perda de subsídios, benefícios e postos de trabalho, por falência de milhares de empresas por todo o país. Esses portugueses acabaram por dependerem para a sobrevivência da ajuda de familiares, amigos e da solidariedade de organizações de apoio, perdendo a dignidade apesar de trabalho árduo durante a vida, por salário insuficiente para sobrevivência, muito menos conseguir angariar um pé-de-meia.

Há remédio para tudo menos para a morte, quando ela chega. Por vezes o tratamento não é fácil, exige acreditar que vamos ficar bem e implica algum sofrimento. Mas quando a cura aconselhada pode ter consequências tão graves ou piores do que a doença, temos de repensar sobre o tratamento recomendado e procurar outras opções através de segundas opiniões.

Não acredito em tratamentos milagrosos espontâneos, nem em dietas rápidas para recompor problemas de saúde que nos afligem por longo tempo. Também, não acredito que a situação económica que tem sido agravada ao longo de 3 décadas possa ser tratada em 3 anos ou mesmo em 4. Procurar solucionar com as medidas de austeridade dolorosas anunciadas pelo governo, é como que informar o doente, que não vai morrer da doença mas sim da cura.

Com a situação económica a que o país chegou, pensar apenas em medidas de austeridade para tentar curar o problema, é tarde de mais, quando o mal económico já alastrou de uma forma metastática para o desespero social. É tarde demais para olhar a tratamento para a cura através de medidas económicas, sem primeiro ser realizado um tratamento político radicalmente. Isso significa, que neste momento uma remodelação governamental ou novas eleições para substituir este governo por outro idêntico, ainda que de partido diferente, não resolve a situação. O sistema político actual está totalmente contaminado de incompetência e viciado de ambições e interesses político-partidários .

Mas, devemos admitir que o governo actual, PSD/CDS, não é o responsável pelo estado económico da nação. A situação vem, como já referi, muito detrás com governos anteriores do PSD, PS e PSD/CDS, que se alternam acusando-se uns aos outros, tendo todos culpas na situação actual do país. A responsabilidade deste governo, está na incompetência por falta de experiência em gerir o país de forma a ultrapassarmos a situação económica que existe, sem afundar mais a situação de sobrevivência dos portugueses.

O povo já saiu à rua contra as políticas e medidas de austeridade. O povo está determinado a participar activamente na governação, porque perdeu a confiança nos partidos e políticos que nos enganam dia após dia com medidas económicas que produzem os efeitos opostos dos desejados e promessas que sabem que não vão cumprir. A situação é de desespero total e as medidas anunciadas do OE para 2013, vão levar os portugueses ao fundo do poço e a uma revolução social.

É preciso mudar de rumo quanto antes. Para que isso possa ter efeito, as manifestações e greves são uma forma de demonstração do descontentamento do povo, mas não são a solução. A tomada da resolução, deveria há algum tempo atrás sido tomada pelo Presidente da República. Infelizmente, Cavaco Silva, é um político de discursos, que expressa palavras de compreensão para com o sacrifício dos portugueses, mas não tem actos de liderança e demonstra-se  incapaz de tomar decisões decisivas e imparciais.

A salvação de Portugal, implica para já a instauração de um Governo de Salvação Nacional. Depois, uma reforma da constituição política do país. Pôr um fim ao uso da Assembleia da República como veículo de protecção aos partidos políticos. A Assembleia da República tem a missão de representar o povo português, não os interesses dos partidos. Para que tudo isto se possa concretizar, é importante neste momento da história de Portugal, o apoio de ex-Presidentes da República, de Magistrados e das Forças Armadas.

About Carlos Piteira

Licenciado em Microbiologia pela Maryland University. Especialista em Microbiologia Clínica pela American Society of Clinical Pathologists. Consultor da Qualidade do Ar Interior. Autor do livro: ” A Qualidade do Ar Interior em Instalações Hospitalares”

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6 comentários em “ENTRÁMOS COM O PÉ ESQUERDO NA CE. TALVEZ TARDE OU NUNCA NOS ENDIREITAMOS”

  1. Paula Says:

    Como é que um presidente da República pode fazer alguma coisa se tem o rabo preso.Não temos agricultura e pescas por causa de que?Como vou confiar nesse senhor se ele faz parte da comandita,e continua a esbanjar o nosso dinheiro.

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  2. Jose Cunha Says:

    Precisamos de outro 25 de abril, mas desta vez sem cravos…

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  3. Micael Says:

    As politicas actuais são de tal forma semelhantes a um cancro que por vezes tenho a sensação de que Deus (para quem acredita) nos mandou esta doença para nos avisar!

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